As entrevistas de emprego são aquele mal necessário: para podermos ter aquele trabalho que desejamos precisamos de passar por esta etapa; para podermos mudar de um trabalho para outro, precisamos de passar por esta etapa.
Estava a ler mais um artigo na Business Insider quando me deparo com uma barra branca de publicidade no lado direito:
O caso da Work4U e da massificação de anúncios de empregos como estágio para atrair pessoas desesperadas por emprego está a fazer as pessoas pensarem.
Tal como a notícia no Público avança, "será esta “marca” um caso isolado ou apenas a ponta de um icebergue de um novo “negócio” à volta dos estágios? A isso ainda ninguém sabe responder."
A verdade é que o caso dos estágios não remunerados já vêm desde que acabei a faculdade ou até antes, corria o ano de 2013. Na altura, eram uma prática ainda nova e uma forma de entrar numa empresa ou ganhar algum currículo.
Contudo, há empresas que sobrevivem e fazem o seu negócio neste esquema: "contratam" um estagiário por três meses, dão-lhes algumas ajudas de custo (em alguns casos, zero euros), mencionam a possibilidade de ficar e no final do estágio despedem e voltam a contratar outro jovem. Se se seguir esta lógica, um cargo pode ser ocupado por quatro pessoas diferentes num ano, e se forem quatro pessoas de uma equipa a fazer a mesma coisa, percebe-se quantas pessoas é que não passam nestas empresas, a trabalhar, a produzir de borla, a criar riqueza na economia a troco de nada.
Já conheço esta realidade e até já devia estar habituada mas as dimensões deste caso chocaram-me e por isso hoje escrevo sobre o assunto.
Os estágios não remunerados estão previstos pela lei, quando inseridos num curso profissional ou universitário, com duração não superior a três meses e com a inclusão de seguro de trabalho e, em alguns casos, ajudas de custos, como subsídio de alimentação e de transportes. Estes estágios não são ilegais, se forem realizados dentro destes parâmetros.
O problema é quando não há protocolos com universidades, não há ajudas de custos. O problema é quando as empresas abusam desta prática para terem pessoas a trabalhar sem o intuito de as formar para fazerem parte de uma empresa. O problema é quando as empresas decidem sustentar toda a sua mão-de-obra no esquema já descrito. O problema é quando a prática é generalizada. O problema é quando nos apercebemos disto mas nem todos conseguimos fazer frente: porque o problema é quando as pessoas aceitam estas condições porque o cenário não remunerado é melhor do que ficar em casa sem fazer nada - e depois, um dia, quem sabe, pode ser uma oportunidade para ficar na empresa.
É urgente parar com este esquema. É urgente expor estes casos às autoridades. É urgente dar condições de trabalho digna às pessoas. É urgente que um país ocidental desenvolvido não seja cumplice de tráfego humano.
Este caso é apenas aquele caso que foi apanhado, reportado às autoridades e divulgado nos media. Sei que existem imensos outros casos assim ou piores. Pode parecer pouco mas fico contente por finalmente algo ter acontecido e alguém ter inspeccionado esta história a fundo. Esperemos que este seja o caso que vai levar a um maior debate nacional sobre o "emprego" que estamos a criar, à custa de jovens sonhadores que precisam de entrar no mercado de trabalho e de profissionais desesperados que querem voltar ao activo.
Hoje, li a notícia sobre este caso e fiquei chocada porque algo deve ser feito. Hoje, fico contente por existir um artigo a mostrar uma realidade que não devia existir e que nunca deveria ter existido. Hoje, espero que todas as pessoas leiam sobre isto e que não fiquem imunes a estas situações, pois todos nós conhecemos alguém que já passou por isso. Hoje, fico contente porque acredito no poder da informação e do jornalismo em expor a realidade e em colocar a sociedade a reflectir sobre o que faz e no que acredita.
Hoje fico contente porque acredito que o amanhã será melhor.
Desde pequenos que a nossa vida está planeada pelos nossos pais: ir para a escola, estudar muito, ser bom aluno, ir para a faculdade, tirar o canudo, ir trabalhar para uma boa empresa, ganhar dinheiro, tirar o mestrado, ganhar mais dinheiro, trabalhar até aos 65 anos e ter uma boa reforma.
Como qualquer pessoa antes da crise pensava desta forma e os meus próprios pais também me mostravam como era importante estudar. Diziam sempre uma frase que me ficou marcada:
Um bom profissional arranja sempre emprego.
Na altura, acreditava que sim mas esta frase já não tem o mesmo significado. A palavra emprego como a conhecemos já não reflecte a realidade que os meus pais viveram. Emprego seguro, durável e com fidelidade à empresa já não existe e foi substituído por estágios, mais ou menos remunerados, com mais ou menos possibilidade de continuação, para pessoas mais ou menos experientes.
Também a definição de bom profissional mudou mas não da maneira que as pequenas e médias empresas pensam. Os gerentes e administradores pensam em contratar um profissional e procuram o candidato ideal: licenciado, bom estudante, jovem (mas com muita experiência), com conhecimentos de línguas, programação, comunicação, vendas, administração e contabilidade e já agora com um horário livre para poder trabalhar as horas que forem precisas - um candidato, por assim dizer, impossível de encontrar. Mas isso não quer dizer que os profissionais deixaram de existir pois o que mudou foi a definição do que é ser um bom profissional.
Assim, num mercado de trabalho incerto, como podemos dizer que um bom profissional arranja sempre emprego?
O bom profissional não é aquele que tem o canudo, não é aquele que tem o melhor currículo com trabalhos nas maiores empresas, não é aquele que sabe fazer tudo de forma rápida e perfeita.
O bom profissional é aquele que quer faça a mais pequena tarefa ou lidere a maior empresa do mundo, quer trabalhe cinco minutos ou quinhentas horas, quer faça aquilo que ama ou se arraste num ambiente horrível só para pagar as contas - independentemente da sua situação laboral, um bom profissional faz o seu trabalho como sempre fez: dando sempre o melhor de si e nunca fazendo nada só porque sim, só para despachar, só para ficar aceitável.
Tornamo-nos bons profissionais sempre que fazemos uma reunião, falamos com alguém ou apresentamos um projecto, pois o bom profissional entende que no mínimo que faz está a colocar um pouco de si, a sua marca, o seu nome. Pensando no seu trabalho, se tudo o que fizesse fosse publicado num livro com o seu nome e as pessoas o pudessem ler, quereria que esse livro fosse apenas razoável? Gostava que as suas capacidades fossem resumidas em três folhas ou gostava que elas brilhassem em todas as tarefas, em todas as reuniões, em todos os contactos?
Assim, acho que aquilo que os meus pais me disseram continua a ser verdade: os bons profissionais arranjam sempre emprego - ou melhor dizendo arranjam sempre uma vida, porque constroem a sua vida com as ferramentas que têm ao dispor. O maior desafio do mercado de trabalho não é ter um emprego mas sim ter sempre trabalho - e um bom profissional tem sempre.


